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Sob o sol de San Pedro de Atacama

  • 28 de mai. de 2014
  • 5 min de leitura

Matador network Brasil, maio 2014

CAI A NOITE NA EMPOEIRADA SAN PEDRO DE ATACAMA. Um homem de traços indígenas carrega nas costas dois caixotes cobertos por uma manta. Passos apressados, olhar perdido no horizonte, parece estar alheio à minha máquina fotográfica e aos tons intensos de vermelho e púrpura que tingem os céus dessa cidade cuidadosamente encravada no coração do deserto mais alto e seco do planeta, a 2.436 metros de altitude.


Duas maçãs grandes escapam de uma fresta em uma das caixas, quebrando o silêncio ao caírem no chão. Um cachorro que andava a alguns metros dali levanta as orelhas assustado, mas o dono das maçãs apenas segue como se nada tivesse acontecido. Mergulhado em seus pensamentos, o homem é só mais um entre vários vendedores atacamenhos que retornam para casa após um longo dia de trabalho na feira livre da cidade.


Com população estimada de 3.200 habitantes, San Pedro de Atacama parece estar dividida pela metade. De um lado, a parte turística, com hostels e agências que oferecem opções de passeio pelo deserto. Do outro, humildes casas de adobe e barracos com telhas de madeira. Uma cruz enfeitada com arbustos demarca discretamente o início do “bairro habitado”. Grande parte dos moradores sobrevive do turismo, seja trabalhando nas agências das ruas centrais ou em armazéns e lojas de souvenirs.



BRINCANDO DE FAROESTE


“Você vai sentir como se estivesse em um filme de bang-bang”. Esta foi a frase que mais ouvi ao perguntar sobre San Pedro de Atacama. Se seu conceito de cidade de faroeste é apenas uma cidade de chão de terra batida, tudo bem. Mas com infra-estrutura digna de cidade turística, San Pedro está bem longe de ser um povoado como os retratados nos westerns americanos.


Nada de cowboys (gado e cavalos não são comuns no meio do deserto) ou pistoleiros (as taxas criminais na região do Atacama são baixas, sendo que o maior índice está em furtos de água potável por alguns moradores – nossos famosos ‘gatos’). Duelos? Só entre guias turísticos querendo convencer grupos de viajantes que seus serviços são melhores e mais baratos.


Os índios, embora sem cocares ou flechas, são presença massiva: em San Pedro 98% da população é indígena, sendo 58% de etnia Atacameña, 39% Aymará e 1% Quéchua, segundo relatório desenvolvimento regional publicado em 2012.



O SOL DO DESERTO


São 9h da manhã e o sol já está forte em San Pedro. Passo em frente ao museu arqueológico da cidade, que guarda peças incas e meteoritos comuns na região. Mas é algo moderno que me chama a atenção: um semáforo de cinco luzes situado ao lado da porta de entrada.


Chego mais perto para ler as descrições de cada luz e descubro que se trata de um ‘solmáforo’. Criado por uma empresa chilena, o equipamento mede os índices de radiação solar por meio de raios ultravioleta.


Vejo a indicação da luz azul, acesa naquele momento: índice UV extremo, com alto risco de insolação, desidratação e câncer de pele. Durante todos os dias que fiquei em San Pedro o alerta continuou o mesmo, só mudando durante a noite, por razões óbvias.

Caminho por meia hora pela cidade, o que significa duas voltas completas pela região central. Após esse período um cheiro urbano aparece. Tento lembrar o porquê de aquele odor parecer tão familiar e percebo que é o mesmo que sinto ao passar em frente a salões de cabeleireiro em São Paulo, a mesma fumaça de cabelos aquecidos pelo calor de secadores e pranchas de alisamento.


Penso que um salão de beleza – embora inusitado – seria muito bem-vindo naquelas circunstâncias, já que após um ou dois dias no deserto a aparência dos cabelos dos viajantes não é das melhores. Procuro pelo salão, mas não o encontro. O aroma, no entanto, parece me perseguir.


Depois de um tempo percebo que o cheiro está por perto, mais especificamente em cima de minha cabeça. Meus cabelos – coitados – estão aquecidos pelo secador mais natural que existe. Procuro por um abrigo para ‘esfriar a cabeça’ e me deparo com o mercado de artesanatos da cidade. Um lugar coberto por teto de palha, ótimo para fotografar e gastar dinheiro.


MERCADO DE ARTESANATO E FEIRA LIVRE: FOLHAS DE COCA, ALPACAS E ARTE ATACAMEÑA


Alpacas de menos de um metro de altura paradas em algumas barracas: está é minha primeira vista ao entrar no centro artesanal de San Pedro de Atacama. Elas são várias e tão brancas que parecem ter saído de um banho de alvejante. À distância o pelo branco e longo tem aparência ainda mais macia do que as alpacas que vi durante a viagem pelo deserto.


Um turista se aproxima de uma delas e a segura nas mãos. Vira o animal de ponta cabeça, confere as patinhas e põe o dedo em cada um dos olhos do bicho. Chego mais perto e vejo outros animais menores, esses de vinte a trinta centímetros, no máximo. A vendedora pergunta se quero comprar algum. O estranhamento termina: vejo que não são animais de verdade e sim, réplicas feitas de gesso e cobertas com pelo de filhote de alpaca, muito fino e macio ao toque.


As ‘alpacas alternativas’ – palavras da dona da barraca – dividem espaço com ponchos, gorros e luvas ideais para enfrentar o frio do deserto, cujas temperaturas podem variar de 40 graus durante o dia para zero à noite. Folhas, chá e balas de coca são vendidas por um preço camarada e ajudam os viajantes nos passeios pelas redondezas.


Bolsas e tapetes estampados com motivos incas, bonecas com grandes tranças segurando seus bebês. É possível passar uma tarde inteira dentro do pequeno mercado e ainda assim não conhecer todos os produtos que ele oferece. Artesanatos idênticos podem ser vistos nas dezenas de lojinhas turísticas espalhadas pelo centro da cidade, mas como encontrar uma onde moradores compram roupas de dia-a-dia, como jeans, tênis e camisetas?


A resposta vem depois de dez minutos de caminhada. Saio do centro da cidade e cruzo a única rua asfaltada. Do outro lado (não existe calçada) está a feira livre de San Pedro. É lá que os moradores compram frutas e legumes frescos, roupas, brinquedos. Lembra uma versão em miniatura das feiras paulistanas, mas o pastel e o caldo de cana dão lugar a biscoitos de polvilho e infusões de folhas de coca, além de ervas que prometem curar de dor de barriga a impotência sexual.


São apenas mais cinco minutos até o hostel onde estou hospedada, que segundo alguns turistas é muito distante da rua central. Acho graça ao escutar tal afirmação, pois considero tudo absurdamente perto. Talvez o problema seja comigo. Quinze minutos é o tempo que gasto para fazer baldeação de linhas de metrô em São Paulo em um dia de sorte. Depois levo mais duas horas entre trem, ônibus, metrô e caminhada no trajeto trabalho-casa.


Como diria Albert Einstein, “o tempo é relativo”, especialmente se você estiver no meio do deserto.



 
 
 

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