Noites agitadas: a vida das garotas de programa de meia idade
- 19 de mar. de 2014
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Rudge Ramos Jornal, outubro 2008
Sexta-feira à tarde. Joana*, 41, prepara o jantar enquanto se arruma para o trabalho. Com cuidado, procura uma roupa que deixe seu corpo mais bonito. Escolhe aquela blusinha preta, “que levanta os seios e esconde a barriguinha”, e a minissaia de sempre, “que valoriza as pernas”. “Existem vários truques para esconder os defeitinhos, e eu abuso de todos. Afinal, não sou mais uma menininha, com tudo durinho, no lugar”, confessa, enquanto corta a cebola.
Tudo pronto, começa a se maquiar, caprichando no batom vermelho. O telefone toca. É sua amiga de trabalho, Clara*. “Ela quer saber se pode vir aqui em casa fazer chapinha. Ontem teve uma chuvinha chata, daquelas que nenhum cabelo agüenta”, conta.
Clara chega e, além do cabelo crespo na raiz e liso nas pontas, algo mais chama a atenção. Aos quarenta e cinco anos, a boca fina e já enrugada está inchada, com sinais de violência. “A tempestade de ontem trouxe alguns estragos. Sabe como é, nesses dias, as coisas ficam mais escorregadias”, conta, com ar de quem já está acostumada aos chamados ‘acidentes de percurso’. Horas depois, as duas saem para o trabalho, torcendo para que o tempo esteja bom nesta noite.
Enquanto isso, Renata*, 46, também se prepara para trabalhar. Discute com o cabeleireiro particular, que a cada dois dias vai até seu apartamento numa das regiões mais caras da cidade. “Cabeleireiros são todos iguais. Falam que vão cortar só a pontinha, mas quando vai ver já foi metade do cabelo. Agora vou ter que colocar megahair até crescer de novo”, grita, enquanto o cabeleireiro se desculpa.
Renata, Joana e Clara estão na mesma faixa etária, mas a aparência da primeira é bem diferente das demais. A pele não tem rugas, mas denuncia algumas plásticas e aplicações de botox. Os dois closets abarrotados de roupas de grife são maiores que qualquer quarto do cortiço onde as outras vivem. Mas, além da idade, existe outra coisa em comum entre elas: a profissão.As três mulheres são prostitutas. Fazem parte de um ramo da prostituição que vem crescendo há alguns anos: o das mulheres com mais de quarenta. Os motivos para oferta e procura variam.
Assim como Joana e Clara, Marina*, 43, trabalha nas mediações da Catedral da Sé, um dos mais antigos redutos de prostituição de São Paulo. Os clientes são principalmente pedreiros, peões de obra e caminhoneiros que passam pelo local. “Os homens nos procuram porque cobramos pouco. Enquanto uma menina de 20, 25 anos cobra R$100 por programa, nós cobramos no máximo R$15. Como rola ejaculação precoce e coisa do tipo, as coisas não demoram muito e conseguimos tirar R$45 quando a noite é boa”, conta. Nesses lugares, as mulheres mais velhas estão no ramo há pouco tempo.
Abandonadas pelo marido, separadas ou viúvas, com filhos já crescidos e com pouca ou nenhuma escolaridade, elas vêem na prostituição uma forma de ganhar dinheiro rápido. “Já trabalhei como diarista e não ganhava metade do que consigo agora. Mal dava pra pagar as contas. Hoje consigo comprar um shampoo mais caro, encher as sacolas de roupa no Brás que é aqui pertinho. A gente tem que se cuidar”, diz Marina.
“Acidentes” de percurso?
A violência é o principal problema enfrentado por essas profissionais. Isabel*, 52, conta que muitas são espancadas e violentadas. “Estupro é natural por aqui. Às vezes o cliente puxa a gente num canto, faz o que tem que fazer e deixa a gente sangrando, além de não pagar. Acho que eles têm prazer nisso, vêm nervosos do trabalho, brigam com a mulher e descontam na gente.” Mesmo sabendo que atender bêbados e drogados é quase que sinônimo de espancamento, elas têm de agir normalmente. “A gente não pode recusar. É difícil, mas uns bêbados pagam e não batem na gente depois. Tem que correr o risco. Se recusar na abordagem, apanha lá mesmo”, relata.
Entre as mais ricas, os motivos são outros. Renata é prostituta há 30 anos. “Nunca fui pobre. Entrei porque não queria mais viver com meus pais e nem depender de faculdade pra isso. Via amigas que se formavam e não conseguiam emprego. Só uma delas tinha luxo sem depender dos pais. Quando perguntei de onde vinha isso, ela me convidou para fazer programas. Vi que podia ganhar num dia o triplo que ganharia em um mês”, diz.
Hoje, Renata tem três apartamentos, uma casa e dois carros importados. Além disso, conta com clientela fixa, em sua maioria composta por homens mais novos. Paulo*, 26, é um deles, e explica porque prefere mulheres mais velhas. “Trinta anos de experiência. Preciso dizer mais? Essas mulheres sabem como deixar um homem feliz. O desempenho delas deixa muitas meninas no chinelo. E a aparência não deixa a desejar. Amigas da minha idade não tem o corpo que elas têm”.
Certezas e ilusões
O custo para manter a aparência é alto. As mais sofisticadas põem silicone nos seios, fazem plásticas, lipoaspirações e vivem em salões de beleza. Algumas investem em cursos de idiomas, como Samanta*, 41, que é fluente em inglês, espanhol e francês. “Não tenho problemas em dizer que troco sexo por glamour e dinheiro. Acompanho clientes em viagens internacionais, conheço vários países. Onde teria uma oportunidade dessas com outro emprego?”
Prostitutas de luxo não são novidade. Estima-se que duas mil garotas trabalhem em prostíbulos de alto nível em São Paulo. As mais novas pensam em chegar aos quarenta ricas e longe da prostituição. “Muitas meninas acham que terão seu momento ‘Uma linda mulher’, quando o cliente é um príncipe encantado que bancam os gastos e largam a esposa para casar com ela. Isso não existe. Também tem as que só querem juntar um pouco de dinheiro e sair. Nunca pensei assim. Por que parar algo que só me traz benefícios? Vou continuar enquanto os homens se interessarem por mim”,diz Samanta.
Ao contrário das prostitutas pobres, para as chamadas ‘acompanhantes de alto nível’ a auto-estima conta – e muito - para a permanência no ramo. “É ótimo saber que seu cliente poderia preferir uma menina com idade pra ser sua filha. É uma massagem e tanto no ego”, fala Renata.Problemas não faltamNo entanto, os problemas aparecem em todas as classes.
A psicóloga Deise Benelli explica que, tanto as prostitutas pobres quanto as ricas têm distúrbios psicológicos. “Muitas delas têm a libido diminuída ou não sentem prazer algum. Também surge repulsa a homens, nojo, raiva. Algumas viram lésbicas. As doenças venéreas são frequentes, mesmo entre as mais ricas. Sem falar no estigma de prostituta que a persegue pelo resto da vida”.
Quanto a isso, Clara admite: “Sou lésbica. Fui casada duas vezes, tive meu primeiro filho com quinze anos. Achava que era feliz com homens, mas na verdade nunca fui.São poucos os que se preocupam com o prazer da mulher. Se for prostituta então, nem se fala. Já tive e ainda tenho algumas doenças. Poucos clientes querem usar camisinha, os que usam são por nojo da gente. Como se a gente tivesse nascido com doença. Não foi. Pegamos deles mesmo”.
Renata afirma não ter nojo ou raiva dos homens, mas diz que nunca se relacionaria com algum. “Sinto prazer na maioria das vezes. Homem sempre quer se ser o melhor na cama. Mas, mesmo que me tratem bem, nunca casaria com nenhum, porque sei que uma semana depois, ele estaria na cama com uma prostituta”.
Amanhece. A garoa fina que cai sobre a cidade brilha ao encontrar os primeiros raios de sol. Renata aumenta o som do carro e canta alto. A noite lhe rendeu R$800 e um arranhão nas costas. “Trabalho agora, só semana que vem. Estou cansada e a marquinha precisa cicatrizar. Mas até que foi bom”, sorri.
Joana e a amiga voltam a pé para o cortiço. Clara precisa retocar a chapinha. “A noite toda na rua e não consegui nada. E ainda garoa na hora de ir embora. Se minha mãe tivesse casado com o japonês que gostava dela, ao invés do meu pai, aposto que eu tinha nascido com o cabelo liso”. Joana a consola e sorri, com a sensação de que a noite não teve tempo ruim afinal, e com a certeza de que, mesmo que chova o sol sempre brilha pra todos.
* Os nomes dos entrevistados foram preservados.





















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