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São Paulo revelada: o fotógrafo André Bueno explica os mistérios da street photography

  • 18 de mar. de 2014
  • 11 min de leitura

Digital Photographer Brasil, n41

“Fotografia de rua é fotografia baseada em experiências pessoais”. A frase, dita pelo fotógrafo e educador André Bueno, foi seguida à risca durante o workshop desta edição

Para o fotógrafo André Bueno, a fotografia derua nada mais é do que um processo de troca. Indignação, surpresa, indiferença ou até o início de uma longa amizade – a reação dos fotografados é sempre incerta, bem como a ideia do que se encontrará na próxima esquina.

E foi assim, sem roteiro formal, que André ministrou a aula prática com o leitor para esta edição, realizada em diferentes pontos do centro da cidade de São Paulo: Estação e Parque da Luz, arredores do metrô República, além de um passeio pelas ruas do Bom Retiro – bairro conhecido pelo forte comércio popular.

Formada em publicidade e propaganda, a leitora JanielliLima deixou a área para dedicar-se totalmente à fotografia. Embora atualmente a maioria de seus trabalhos esteja ligada à fotografia social, Janielli diz ainda não ter um gênero preferido.“Hoje, atuo como fotógrafa social, de registro de ensaios sensuais a casamentos, mas gosto de capturar apresentações culturais por não saber o que está por vir. Creio que a fotografia de rua apresente estas mesmas características.”

Durante a conversa no IIF, onde foi apresentada a parte teórica deste workshop, Bueno explicou que os conceitos da fotografia de rua são extremamente pessoais: enquanto uns preferem fotografar de longe, outras gostam de interagir e chegar o mais perto possível do assunto. Existe também o time dos aficionados por fotos macro e aqueles que escolhem registrar motivos arquitetônicos. Diante de tanta relatividade, Bueno apresentou referências de cada área da fotografia de rua e mais: trouxe dicas de como construir uma carreira rentável neste ramo da fotografia. Confira nas próximas páginas.

Nos bastidores...

IR PARA A RUA

Parece óbvio, mas o primeiro passo para ser um bom fotógrafo de rua é estar nela. Não apenas fisicamente, mas mentalmente. Adquira o hábito de andar com sua câmera na bolsa e atentar-se para o que acontece ao seu redor. Dessa forma, é possível aprimorar o olhar fotográfico e tornar-se parte do contexto no qual está inserido.

André Bueno explica:“Quando você sai com a sua câmera, a própria rua ajuda você a entendê-la. Muitas vezes, você pode passar um dia em um lugar e fazer várias fotos que podem parecer esteticamente interessantes e nada mais. Ao analisar as mesmas imagens com calma, você passa a enxergar um significado que muitas vezes o fará voltar para lá.”

CULTURA

André Bueno conta a experiência de um amigo que, ao tentar fotografar uma cigana na Avenida Paulista, assustou-se com os berros da mesma, que dizia: “Some com essa máquina de perto de mim! Você quer roubar minha alma? Sai de perto!”

O rapaz disse ter ficado sem entender o porquê de ter sido chamado de ‘ladrão de almas’ e preferiu acreditar que a mulher não estava falando sério.

Muitas culturas - como os ciganos romani tradicionais e algumas tribos indígenas – acreditam que, ao fotografar, a alma é capturada. Para eles, as pessoas transmitem um tipo de energia constantemente e, quando se captura a imagem de uma pessoa, parte dessa energia se vai com a representação imagética da fotografia.

Ou seja, quando a cigana mandou que o fotógrafo se afastasse, ela estava apenas manifestando sua cultura, uma crença que tem sido transmitida desde que a fotografia foi inventada, no século 19. Esse é apenas um caso, mas todos estamos sujeitos a cometer as chamadas ‘gafes sociais’, mesmo entre pessoas originárias do mesmo país.

ÉTICA

Questões éticas são controversas em qualquer área de trabalho. Na fotografia de rua, não é diferente. Uma das principais dúvidas é: deve-se fotografar de perto ou de longe? Com ou sem o consentimento do retratado?André conta que, embora não existam “certos ou errados”, ele acredita que, para que seja transformadora de fato, a foto tem de ser feita de perto. “Existem casos e casos, mas geralmente sou adepto da frase de Robert Capa, que dizia que se sua foto não está boa é porque você não chegou perto o suficiente. Ao usar uma lente que deixe você bem perto, você pode correr mais risco de levar um não, mas também pode ganhar mais interações com seu fotografado”, afirma.

“Algumas pessoas – fotógrafas ou não – têm o costume de tratar indivíduos de modo diferente da realidade na qual estão inseridos, como animais em um zoológico. Olham de longe, tiram fotos e viram a cara. Acredito que, ao fazer isso, um fotógrafo está deixando de aprender muitas coisas como profissional e como ser humano.”Sobre a legislação, André explica que todos têm direito de fotografar em um espaço público, bem como registrar alguma pessoa que esteja dentro deste contexto. “É preciso ser ético e saber até que ponto você está expondo alguém. Muitas vezes me vi diante de situações nas quais poderia ter feito uma foto forte, mas preferi baixar a máquina e deixar de registrar a foto por puro respeito ao outro indivíduo.”

ESCOLHA

Para André Bueno, a fotografia de rua é um dos segmentos que mais valorizam o processo de escolha do fotógrafo. Ele cita o termo “flaneur” – do francês “vagabundo”, “preguiçoso”, derivado do verbo flâner, que significa “para passear”.

O poeta francês Charles Baudelaire descrevia o flaneur como “uma pessoa que anda pela cidade a fim de experimentá-la”, com uma percepção que parece se dar diante do que é transitório na cidade.“Ao andar por determinado bairro, se você entra por uma rua ou outra, você está criando um processo de escolha. Por exemplo, se você vai para o centro de São Paulo, pode decidir se vira em tal esquina, onde está a cracolândia, ou em outra na qual a calçada está cheia de buracos. Essa decisão faz parte do processo criativo e transforma você de alguma forma. O ato de se permitir faz parte da poesia embutida na sua imagem”, explica André.

Fotografia de rua e narrativa a longo prazo

PRIMEIRO PASSO: VOCÊ É O QUE FOTOGRAFA

“Na minha opinião, o grande desafio é encontrar boas histórias para contar e focar naquilo”, diz André. Ele dá o exemplo da fotógrafa americana Vivian Maier: nascida na cidade de Nova York, Vivian mudou-se ainda criança para Paris.

Ao retornar para os Estados Unidos, adotou uma pacata rotina como babá na cidade de Chicago por mais de quarenta anos, até o fim da vida, em 2009. Durante todos esses anos, Vivian produziu mais de cem mil fotografias que mostram a vida nas ruas de Chicago e Nova York nos anos 1950 e 1960.

“Muitas das fotos de Vivian retratam crianças em seu cotidiano”, diz André. “Creio que isto acontecia por ela acompanhar as famílias com sua câmera a tiracolo. Ou seja, ela tinha um assunto em foco (as crianças) e se permitia observar e registrar as interações sociais de uma forma flaneur, invisível”, afirma.

SEGUNDO PASSO: ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

Misteriosa e reservada, Vivian passou a vida toda sem mostrar seu trabalho ou mesmo contar a ninguém sobre seu interesse por fotografia. Sua paixão só foi descoberta em 2007, quando o colecionador de arte John Maloof comprou trinta mil fotos e negativos da fotógrafa, então anônima, em um leilão na cidade de Chicago.

Mesmo acumuladas em caixas de papelão, as imagens chamavam a atenção pela qualidade e pela organização da narrativa.Ao ver uma sequência de fotos de Maier não é difícil traçar um perfil antropológico e comportamental da cidade de Chicago da década de 1950. “A fotografia de rua tem de ter uma narrativa muito boa para que, com o passar dos anos, o profissional seja capaz de traçar uma linha de raciocínio de imagens que tenha condições de virar um livro, uma exposição ou um projeto”, explica André.

TERCEIRO PASSO: DIVULGAÇÃO

Fotógrafa excepcional, Maier cometeu ao menos um grande erro em sua trajetória: não expor seu trabalho para os outros. Seu legado foi descoberto por acaso, quando um corretor imobiliário que procurava material para produzir um livro documental da cidade de Chicago resolveu comprar cerca de trinta mil fotografias – impressas e ainda em negativo – em um leilão.

Acredita-se que as imagens tenham sido vendidas quando Maier não tinha mais condições de pagar suas dívidas. Ao perceber o que tinha em mãos, o corretor comprou o restante do trabalho de Maier de outro vendedor e foi em busca de mais informações sobre a fotógrafa misteriosa.

Embora tenha sido fácil descobrir o nome de Meier, o corretor só conseguiu mais informações sobre a dona das imagens ao ler seu obituário em um jornal, dois anos depois.Ou seja, divulgue seu trabalho enquanto pode. E mais: saiba como divulgar. Páginas do Facebook, sites, portfólios virtuais, tudo isso vale.

Mas segundo André Bueno, a melhor forma de mostrar o que faz é pensar em alternativas para que seu trabalho saia da rede. “Com o advento das redessociais, somos bombardeados diariamente com milhares de imagens. O fotógrafo deve pensar em estratégias como intervenções urbanas, exposições e projeções de imagens para que seu trabalho tenha um outro tipo de alcance. Às vezes, amplio fotos que tirei nas ruas e entrego para a pessoa que foi fotografada. A reação é sempre incrível”, conta André.

VAMOS PRATICAR?

Chega a hora de irmos para a rua. Primeira parada: Estação da Luz. Aberta ao público em 1901, a estação recebe mais de 147 mil passageiros por dia, de acordo com dados da prefeitura de São Paulo. Pessoas vindas de todos os cantos trafegam pelo prédio e trazem com elas histórias e imagens singulares.

DIFERENÇAS

A poucos metros do corre-corre da cidade registrado por André e pela leitora Janielli, está o Parque da Luz, segunda parada do workshop. Lá, Janielli pôde observar os contrastes da cidade: enquanto muitos estão apressados para pegar o trem, os visitantes do parque parecemestar apenas contemplando. Alguns leem jornal, outros jogam conversa fora. Cenas cotidianas que muitas vezes nos passam despercebidas.

EQUIPAMENTO

Durante o passeio pelo centro, André mostrou na prática questões sobre equipamento e falou sobre opiniões pessoais. Enquanto ele usava uma Canon 5D com lente de 50 mm, Janielli usava uma Nikon D90 com lente de 18-105 mm.

André explica que a escolha da lente, tal qual nos outros ramos de fotografia, deve ser feita com base no que se quer fotografar.“Para mim, não há diferença em qual tecnologia é utilizada, embora muitos fotógrafos se prendam a isso, dizendo, por exemplo, que imagens feitas com celular não são fotografia.

Com isso, o profissional fica desatualizado e esquecido pelas novas gerações. O Robert Capa, por exemplo, sabia que precisava contar a história da Guerra Civil Espanhola. Para fazer isso, não importava se as fotos eram em cores ou preto e branco, ou mesmo se era necessário trocar a câmera fotográfica por uma filmadora. Ele se apropriava dos recursos que tinha”, diz.

“Acho que cada equipamento proporciona uma relação diferente com o tema. Se fotografo uma pessoa na rua olhando diretamente pelo visor da câmera, vou expressar uma determinada sensação na foto. Se fotografo olhando pelo visor, mas sem olhar diretamente para a pessoa, aquele que vir minha imagem irá perceber uma sensação totalmente diferente.”

ÚLTIMA PARADA: BOM RETIRO

Não muito longe do Parque da Luz está a região do Bom Retiro, conhecida pelo comércio de roupas e pela grande diversidade cultural. É possível encontrar, em uma mesma rua, imigrantes e descendentes de vários países, sendo que a principal presença está dividida em bolivianos e chineses.Atenta a todos os detalhes, Janielli fotografou de vitrines com decoração peculiar a cenas inusitadas e ainda assim imperceptíveis à pressa cotidiana, como uma placa de sinalização de ponta cabeça.

PARA FINALIZAR: CHUVA!

Na cidade de São Paulo, as tardes dos primeiros meses do ano costumam ser fechadas por chuvas fortes e passageiras. Desta vez, não foidiferente. Horas após começarmos a caminhada, tivemos de apressar o passo para fugir da tempestade que estava por vir, denunciada pelas cinzentas nuvens de chuva.

Embora este fato tenha encurtado a parte prática deste workshop, ele também rendeu fotos interessantes. Ao passar por perto do edifício Prestes Maia e suas inúmeras janelas, André e Janielli não pensaram duas vezes antes de sacar suas câmeras e registrar o contraste da construção e o céu carregado.

Quando se está com câmeras na mão é impossível poupar tempo: ao ver algo que chame a atenção, a caminhada é pausada para registrar o motivo da ‘distração’. Com isso, fomos pegos pela chuva no meio do caminho. Hora de guardar o equipamento? Não necessariamente. Assim que encontrou um abrigo, a leitora se apressou em registrar a correria das pessoas em busca de um guarda-chuva e colocou a câmera na mochila um bom tempo depois, ao chegar em uma estação do metrô. Afinal, seja uma placa de ponta cabeça ou uma chuva torrencial, na fotografia de rua nunca se sabe o que lhe aguarda na próxima esquina.

PROFESSOR E ALUNA COMENTAM A AULA

Escolha de pessoas, assuntos e histórias

DPBR: O que mudou sobre sua percepção de fotografia de rua após fazer este workshop?

Janielli Lima: Geralmente sinto que minha melhores fotos são aquelas produzidas quando não tenho obrigação de fazê-las. Percebo que é mais ou menos isso que acontece na fotografia de rua. Ao fotografar um aniversário infantil, por exemplo, você tem a obrigação de registrar a criança soprando as velinhas. Na rua, isto não acontece, você está livre para criar.

DPBR: Qual o maior desafio encontrado ao caminhar pelo centro de São Paulo?

JL: Não costumo sair sozinha para fotografar. Me sinto mais confortável e segura com um grupo, mas percebo que hoje a dificuldade se deu pela falta de tempo por conta da chuva. Percebo que, na fotografia de rua, o importante é aguçar o olhar e isso exige mais tempo para se encontrar no local. Hoje, pela correria, não consegui contemplar, me sentir ali. Não fosse a chuva, eu passaria o dobro de tempo em cada lugar que visitamos.

DPBR: Quais as principais dicas para o iniciante na fotografia de rua e como construir uma carreira nesse ramo?

André Bueno: A principal dica é fotografar assuntos que o interessem. Não basta escolher uma rua. É preciso escolher assuntos, pessoas e histórias do seu real interesse. Ao encontrar histórias que dialoguem mais com sua intenção, o fotógrafo vai se entregar mais e sua foto será mais forte.

Assim, é possível construir uma relação com o próprio trabalho e aprimorá-lo a longo prazo, já que o iniciante não deve pensar em fotografia de rua como fonte de renda imediata. Tudo deve ser construído. Feito isso, otrabalho pode se tornar projetos de longo prazo, rentáveis ou não.Para conseguir financiamento, o fotógrafo que já tem seu interesse definido deve buscar ajuda em empresas ou ONGs que compartilhem do mesmo interesse que ele, além de inscrever seus projetos em editais públicos de fotografia.

DPBR: Como foi escolhido o roteiro de hoje?

AB: Passei várias vezes pelo bairro do Bom Retiro, mas nunca com a câmera na mão. Para mim, a impressão foi de um bairro totalmente novo. Acho interessante o fato de passar a enxergar com outros olhos um lugar “familiar”, ao qual você já está acostumado.Além disso, percebi que a Janielli gosta de fotografia de moda, e o Bom Retiro é um bairro comercial.

Na fotografia de rua é possível misturar vários nichos em um só e com a moda não é diferente. É preciso ter sensibilidade sobre a rua para criar imagens sob um contexto. Não basta criar um cenário qualquer.

DPBR: Com você analisa o resultado produzido pela leitora neste workshop?

AB: Percebo que a Janielli é uma pessoa sensível que está buscando se encontrar na fotografia e acho interessante que ele esteja se propondo a experimentar fotografia de rua, embora pareça que ela goste mais de fotografia de moda.Percebi que, ao compor, a leitora busca espaços físicos, onde a presença humana não está presente, ou se está é de forma mais implícita. Não há problema algum nisso, mas creio que, quando você está começando, é interessante experimentar novas composições a fim de abrir o olhar.

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ALUNA

“Neste workshop, percebi que fotografia de rua é fotografia de momento, e que me falta ir para a rua, fotografar em outros lugares”

Janielli Lima

“Meu interesse pela fotografia vem de longe. Sempre fui a fotógrafa da família e buscava estar com uma câmera por perto. Anos após me formar em Publicidade e Propaganda, tomei coragem e resolvi largar tudo pela fotografia. Pedi demissão no emprego e, desde então, venho trabalhando somente como fotógrafa”

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PROFESSOR

André Bueno

Seu primeiro contato com a fotografia se deu por volta dos 14 anos de idade, como hobby. Em 2004, após atuar na área mecânica, emprojetos industriais, resolveu largar tudo pela fotografia. Em 2007, Bueno intensificou seu trabalho autoral documental e iniciou a atividade como fotógrafo educador e coordenador doprojeto fotográfico Um Olhar. Participou de publicações como Folha de SãoPaulo, jornal Zero Hora(RS), revista Caras, revista Carta Capital, revista Quem, portais Globo.com, Terra etc. Ganhou prêmios e ministra oficinas fotográficas para centenas de jovens das comunidades de Paraisópolis e Grajaú, em São Paulo.

 
 
 

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