Especial Amazônia: Um dia no Recanto dos Botos de Novo Airão
- 19 de abr. de 2014
- 5 min de leitura
Antropologia visual, março 2013
Dóceis e simpáticos, os botos-cor-de-rosa atraem turistas na região amazônica. Confira como é o dia-a-dia em um dos principais flutuantes que oferece o serviço e descubra porque essa prática pode estar com os dias contados.
COM UMA FACA afiada na mão, Silvana abre a geladeira à procura de um dos vários peixes pescados pelo filho ainda de madrugada. Exibindo a habilidade típica que só a rotina pode trazer, em questão de minutos ela despedaça traíras escolhidas a dedo. Quando acaba de encher uma tigela grande com os pedaços de carne, coloca um sorriso no rosto e diz entusiasmada: “Vamos separar os melhores pedaços, porque a Tina precisa se alimentar”.
Com seus 100kg, Tina exibe uma silhueta arredondada, mas ainda assim necessita uma alimentação reforçada, como toda mãe em processo de amamentação. Depois de dez meses de gestação e marcada por ferimentos misteriosos, Tina deu à luz a Caco, que a acompanha o tempo todo. Uma gestação de dez meses. Parece bastante? Nem tanto, porque Tina e Caco são botos-cor-de-rosa. Eles são apenas alguns dos animais que visitam o Recanto dos Botos, à procura de comida.
Self-service para botos?
Há dez anos a rotina do casal Silvana e Érico está interligada com os golfinhos. Tudo começou quando Silvana percebeu que um dos filhos sempre voltava de suas pescarias contando estórias sobre como os botos da região o cercavam pedindo carinho e peixes. Não levou muito tempo para que a família transformasse sua casa em um flutuante equipado com restaurante e lojinha de artesanato que atrai visitantes em busca do já famoso ‘mergulho com os golfinhos’. Atualmente, o Recanto do Boto é um dos cinco estabelecimentos autorizados pelo Ibama para a prática de turismo aquático com cetáceos.
Entre peixes e turistas, Silvana conta que a vida com os golfinhos é cansativa, mas recompensadora.“Antigamente, eu ouvia histórias de moradores que machucavam os botos por achar que eles fossem fazer mal pra alguém. Hoje com o sucesso do Recanto, as pessoas estão se conscientizando que os botos são amigos e que podemos viver em harmonia.”, explica.
Nadando com os golfinhos
As cores branca e vermelha do flutuante chamam a atenção em frente à vastidão das águas do Rio Negro. Após duas horas de viagem de lancha partindo de Manaus, os visitantes são recebidos com as boas-vindas de Silvana assim que a embarcação atraca. Depois de explicar um pouco sobre o trabalho realizado no flutuante, ela e o filho Eric presenteiam os turistas com colares artesanais feitos com materiais típicos da Amazônia.
Em meio a agradecimentos e elogios ao artesanato feito de sementes das árvores próximas, escuta-se um grito de uma criança, que diz em inglês: “Pai! Olha lá uma mamãe golfinho nadando com o bebê!”Todos os olhares se voltam ao rio, onde Tina e Caco pulam freneticamente, provavelmente à espera dos peixes diários oferecidos por Eric. Não demora muito para que outros botos apareçam, vindos de todas as direções.
COM GRITOS ESTRIDENTES, os golfinhos parecem crianças chamando os adultos para brincar. Enquanto se debatem na água, Eric - filho de Silvana e “alimentador oficial dos botos” – traz os baldes cheios de traíras frescas. Na natureza, os animais podem comer mais de 20kg de peixe por dia, mas segundo normas do Ibama, os guias podem oferecer apenas 10% desse valor para evitar que os animais não se alimentem demasiadamente. Os turistas são encaminhados para uma plataforma construída dentro do rio. Silvana explica que todos poderão nadar com os animais, mas apenas Eric pode alimentá-los, por questões de segurança.
Separados em grupos de seis, os visitantes entram nas águas escuras do rio Negro. Stacy, uma estudante americana, conta que está morrendo de medo, apesar de achar os golfinhos simpáticos. “Fui mordida por um peixe quando era pequena e tenho a cicatriz até hoje. Imagina o que um bicho desse tamanho pode fazer?”
Não é só ela que parece apreensiva. Nos primeiros minutos, todos os turistas – inclusive eu – observam Eric alimentar os botos de longe. Mas basta ouvir os gritos de alegria soltados pelos bichinhos para perceber que não há motivo para temer. Sabe aquelas crianças que cutucam com o dedo para chamar a atenção? Os botos fazem a mesma coisa, mas com o bico.
Depois de vinte minutos de brincadeira com os golfinhos, os turistas são convidados a sair da água para que os animais possam descansar. Mas as atrações no Recanto não param por aí. Está na hora de os turistas testarem suas forças com um gigante da do rio Negro
Pirarucu: O "bacalhau da Amazônia"
DEPOIS DA NATAÇÃO, os visitantes são levados para um cercado de madeira submerso no rio. Esse local serve de viveiro para quinze Pirarucus, um dos maiores peixes de água doce do planeta. Os turistas mais empolgados procuram pela plataforma para nadar com os peixes, mas Silvana explica que devido à força e violência desses animais, a forma de contato será diferente: simulando uma pesca. E tem mais: “Não é qualquer um que consegue se segurar quando o peixe morde a isca. Duvido que algum de vocês consiga levantar a vara de pesca com o Pirarucu”, provoca.
Desafio lançado, desafio aceito. Dentre onze pessoas que arriscaram fisgar e içar o peixe, apenas um alemão consegue cumprir a tarefa. Ao jogar a isca na água, é ouvido um forte estalo da mordida, seguido por um show de força enquanto o Pirarucu se debate para se livrar do anzol.
Em janeiro de 2012, quatro Pirarucus nadavam no viveiro do Recanto dos Botos, mas Silvana não sabe até quando isso será possível. “O Ibama está falando em proibir (os Pirarucus) e deixar só os botos. Se eles disserem para tirar, eu tiro. Aqui o que a gente quer é mostrar que é possível convivermos em sintonia com a natureza sem causar mal pra ninguém”, explica.
O bacalhau proibido
Não é de hoje que o pirarucu é chamado de "Bacalhau da Amazônia". Chefs brasileiros vêm tentando emplacar o “gigante” dos rios amazônicos como um dos melhores bacalhaus do mundo.
Com mais de 250kg e três metros de comprimento, o Pirarucu -- "peixe-vermelho em Guarani" – não é presa fácil para os pescadores. O peixe é agressivo e não se entrega facilmente ao ser fisgado por um anzol. Mas o ponto fraco desse animal está no que poderia ser uma vantagem evolutiva: dois sistemas respiratórios distintos. Enquanto um funciona embaixo d água, o outro trabalha fora dela.
Ao vir à tona para respirar, o Pirarucu torna-se vulnerável a ataques de predadores e pescadores ilegais. Para sorte da natureza, matar um "bacalhau da Amazônia" é crime ambiental e pode levar a três a cinco anos de prisão.
“O Ibama está falando em proibir (os Pirarucus) e deixar só os botos. Se eles disserem para tirar, eu tiro. Aqui o que a gente quer é mostrar que é possível convivermos em sintonia com a natureza sem causar mal pra ninguém”.
De volta à terra firme
Depois de nadar com botos e "lutar" com Pirarucus, os visitantes do Recanto do Boto se preparam para embarcar rumo à cidade. Além das várias fotos - os funcionários do local se oferecem para fotografar o mergulho de quem está sozinho - e do colar dado de presente por silvana, os turistas levam mais alguma coisa para a civilização.
Poucos carregam produtos ou artesanatos vendidos na lojinha do flutuante, o alemão leva (pelo dia inteiro) uma expressão de orgulho por ter sido o ‘Super-homem do dia’, mas todos também levam consigo a tranquilidade proporcionada pela interação homem/natureza idealizada pela família de Silvana ao criar o Recanto.
Acompanhe a continuação da matéria no próximo post






















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