Na época que o teste de paternidade não existia: a lenda do boto-cor-de-rosa
- 10 de mar. de 2014
- 2 min de leitura
Antropologia visual - março 2013
PERGUNTE A QUALQUER NATIVO da região amazônica: antigamente, quando uma mulher aparecia grávida fora do casamento, de quem era a culpa? Do boto, é claro! Os botos-cor-de-rosa são animais charmosos. Mulheres, homens, crianças, todos aqueles que têm a oportunidade de interagir com eles ficam encantados em ver como esses cetáceos são desinibidos em contatos com os seres humanos. Mas segundo uma antiga lenda amazônica, essa desinibição pode ir muito além do que os turistas desinformados possam imaginar.
A lenda do boto
Diz a lenda que, em época de festa junina, o boto se transforma em um homem muito bem vestido e sai dos rios assim que a noite cai. Mas essa transformação tem um problema. O orifício presente na cabeça de todos os cetáceos para ajudar na respiração continua lá, por isso o boto-homem usa um chapéu para disfarçar o defeito.
Vestido de bom-moço, o boto procura as comemorações de festas juninas, dança, bebe e procura alguma moça desacompanhada. Conversa vai, conversa vem, o boto convence a pobrezinha a dar um ‘passeio perto do rio’. Chegando lá, as engravida e mergulha nas águas do rio, de onde só sairá no próximo ano.
O que a ciência acha disso?
Cientificamente falando, os botos estão entre os animais mais ativos sexualmente no mundo. Tirando os primatas, é a única espécie que faz sexo apenas por prazer. Embora a lenda sobre "botos-homens" tenha se originado no século 19, as histórias de homens que se transformam em botos vêm da mitologia dos índios tupis, na qual o deus Uauiará se transformava em boto para namorar belas mulheres.
Verdade ou não, até hoje as mães solteiras na região do Amazonas desconversam as perguntas sobre os pais de seus filhos dizendo que estes são “filhos do boto". Algumas pessoas também usam o olho do boto desidratado para conseguir sucesso no amor.
Funciona assim: se o homem quer conquistar uma mulher, ele deve olhar para ela através de um olho de boto. No mesmo segundo que receber o ‘olhar fatal’ ela ficará perdidamente apaixonada. Ou seja, se você é mulher, da próxima vez que estiver andando pela região amazônica e vir alguém olhando para você através de um olho seco de boto-cor-de-rosa, já sabe. A culpa não foi do lindo gesto animal, mas do boto.
Boto ou golfinho: entenda a diferença
Em entrevista para a revista Super Interessante, o biólogo Marcos César Santos explica que tudo se trata de questões regionais: “O termo boto ganhou força no Brasil para nomear o pequeno cetáceo encontrado nos rios da Amazônia. A partir daí, passou a ser ensinado em escolas que boto era de água doce e golfinho, de água salgada. Mas essa diferença não existe", explica.
Os golfinhos (ou botos) são animais da ordem dos cetáceos, tal como as baleias. Eles se subdividem em duas famílias. A primeira leva o nome de Delphinidae, que reúne as espécies marítimas, como o boto-tucuxi (aquele de coloração cinza), a orca e o golfinho-nariz-de-garrafa (lembra do filme Flipper?).
Já os cetáceos da família Platanistidae vivem apenas em rios, como o golfinho-do-rio-ganges.





















Comentários