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Workshop com o leitor: Iluminação de retrato em estúdio

  • 1 de mar. de 2014
  • 8 min de leitura

Digital Photographer Brasil, ed 39

O fotógrafo Daniel Ávila mostra como construir cenas e transmitir sentimentos com a iluminação correta

Vá até a janela mais próxima e olhe paraa rua. Como está o tempo? Nublado ou ensolarado? Agora, deixe o relógio de lado e, com base no que você vê,arrisque um palpite e diga que horas são.Manhã ou fim de tarde?

Quaisquer que sejam as respostas, um fator determinante serviu de fio condutor até elas: a luz. Entender como ela funciona e como é construída são os primeiros passos para uma ótima fotografia, seja ela produzida em ambientes naturais ou não.

Pensando nisso, o workshop desta edição traz como tema a iluminação básica de retratos em estúdio.Intimidade, distanciamento, tranquilidade. Para o fotógrafo e professor Daniel Ávila, sentimentos distintos podem ser transmitidos em uma foto, desde que a luz correta seja aplicada. Por conta disso, preceitos como variáveis de luz, temperatura de cor e funções de equipamentos foram apresentados durante a primeira parte da aula prática, realizada no estúdio fotográfico do Instituto Internacional de Fotografia (IIF) no bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo.

Todo este material foi preparado especialmente para nossa leitora selecionada, a make-up artist e estudante de fotografia Amanda Araújo. Ao terminar o ensino médio, Amanda se viu frente ao famigerado dilema de escolha de profissão. Atraída pela fotografia desde a infância, decidiu seguir por esse caminho, visto com desconfiança pelos pais. “Percebi que estava fissurada com fotografia e não pensava em outra coisa. Meu pai reclamou, dizendo que essa era uma profissão arriscada, por não trazer retorno imediato. Com o tempo, o convenci de que esse era o meu caminho”, conta. Atualmente, Amanda trabalha como fotógrafa de eventos freelancer e viu no workshop uma forma de aprimorar seus conhecimentos.

Os conceitos...

Observe e absorva

Não importa o nível de seu conhecimento fotográfico, é sempre bom buscar imagens que o inspirem de alguma forma. Durante a parte teórica da aula, o professor explicou como as referências podem servir de alicerce na elaboração de sua identidade fotográfica. Portanto, faça uma pausa e instigue o processo criativo olhando o trabalho de outros fotógrafos. Não se trata de imitação, mas de uma ferramenta na construção de ideias originais.

Ávila conta que identificou sua preferência por retratos em preto e branco ainda na faculdade. “Na disciplina ‘Poéticas visuais’ os alunos deveriam salvar todas as fotos que vissem e de que gostassem durante o semestre. Seis meses depois, quando fui organizar a pasta com as imagens, percebi que as fotografias conversavam entre si, dispunham da mesma linha de iluminação e pareciam ter sido feitas por, no máximo, três fotógrafos. Na verdade, eu havia reunido imagens aleatórias de mais de 20 profissionais. Foi aí que entendi do que gostava e qual era o caminho que deveria seguir”, afirma.

A luz como aliada

Áreas como a arquitetura e o neuromarketing (vertente do marketing que utiliza a neurociência para entender o comportamento do consumidor) usam a luz para ‘enganar’ a mente humana e impor sentimentos e comportamentos específicos. A fotografia, a pintura e o cinema fazem o mesmo, e é possível aplicar esses conceitos na fotografia de estúdio. Veja alguns exemplos.

Temperatura de cor

A cor tem como unidade de medida o Kelvin (K). Quanto mais alta a temperatura de cor, mais clara é a tonalidade da luz. Embora o princípio seja simples (luzes com tons avermelhados são quentes, enquanto as de tons azulados, frias), muita gente se confunde, já que não se trata do calor físico da fonte de luz, e sim da tonalidade de cor que ela irradia. Uma luz (de cor) quente pode vir de uma fonte fria ao toque, como uma lanterna LED, por exemplo.

Pense em restaurantes, cafés e quartos de hotéis. Além da iluminação amarelada, o que esses ambientes costumam ter em comum? A sensação de aconchego. Cores quentes produzem climas intimistas em ambientes e em fotografias. Nos retratos, elas podem transmitir relaxamento, aproximar o observador do modelo e comunicar sentimentos como drama e paixão.

Por outro lado, cores provenientes de luzes brancas ou azuladas transmitem frieza e isolamento. Usadas em ambientes como hospitais e cozinhas, remetem à limpeza e atenção. Esse tipo de iluminação é bastante utilizada em retratos publicitários, por conferir maior fidelidade às cores.

POSIÇÃO DA LUZ

Na segunda parte do workshop, Ávila explicou as quatro posições básicas de luz: principal (também conhecida como ataque), de compensação, contraluz e de efeito. É necessário conhecê-las antes de montar o equipamento de iluminação em estúdio. Veja abaixo.

Principal ou de ataque

Como o nome já diz, é a luz predominante, a primeira luz. Na fotografia de paisagem, por exemplo, seria a luz solar.

De compensação ou preenchimento

Qualquer fonte de iluminação que preencha as áreas de sombra criadas pela luz principal. É definida como fonte de luz secundária, por não criar sombras visíveis. Na natureza, é aquela rebatida dos raios solares em todas as superfícies: chão, parede etc. No estúdio, é possível conseguir esse efeito usando rebatedores, que têm como principal função iluminar as sombras.

Contraluz

Apontada na direção contrária à câmera, a contraluz já era usada na época em que as imagens eram captadas apenas em preto e branco, para separar o assunto do fundo, criando um efeito de tridimensionalidade. Em retratos de estúdio, a contraluz é responsável por criar efeitos de iluminação nos cabelos e proporciona um visual mais artístico.

De efeito

Verde, azul, vermelha. Luzes coloridas podem mudar o resultado final de uma foto e transmitir diferentes sensações. Lâmpadas coloridas ou gelatinas acopladas aos refletores permitem que as cores sejam adicionadas no momento em que a imagem é captada.

VARIÁVEIS

Além de compreender as diferentes luzes e suas finalidades, o fotógrafo deve conhecer suas principais variáveis, que se dividem em intensidade, direção e natureza, além da cor.

Intensidade

É a quantidade de luz que alcança o objeto. Em estúdio, é comum o uso de fotômetros para calcular a relação entre fontes de luz e garantir a exposição correta. Em termos fotográficos, a intensidade da luz se subdivide em três áreas: a sub e a superexposição e a exposição ‘correta’.

Direção

Um grupo de amigos se reúne para ouvir histórias de terror em um ambiente escuro. A fim de parecer mais assustador, o locutor ilumina o próprio rosto posicionando uma lanterna embaixo do queixo. O incômodo gerado não tem a ver com a história em si, e sim com a anormalidade da direção da luz.

Nossa mente está acostumada a identificar direções de luz provenientes de cima - seja o Sol ou lâmpadas. Como a iluminação inferior é basicamente nula na natureza, o cérebro não reconhece a direção de luz e a categoriza como assustadora.

Natureza

Na fotografia, a natureza da luz pode ser dividida em dura (luz direta ou filtrada) ou difusa (rebatida ou difundida). Embora seja um dos preceitos fundamentais sobre iluminação, muitos fotógrafos se confundem ao distinguir uma de outra. A luz suave é aquela que cria sombras com uma transição gradual entre claro e escuro. Geralmente é alcançada quando a luz é indireta ou quando é filtrada por um difusor. Na natureza, o trabalho fica por conta das nuvens, enquanto no estúdio, uma ampla gama de equipamentos como softboxes, beauty dishes e sombrinhas difusoras criam o mesmo efeito.

O conceito de luz dura costuma confundir algumas pessoas, já que nem sempre luzes fortes são duras. O que define esse tipo de luz são os pontos de transição de escuro para claro. Quando a mudança de iluminação é súbita a ponto de criar sombras com bordas bastante definidas, a luz presente é uma luz dura.

Da luz ao modelo

É importante estudar as características faciais do modelo e do trabalho que você pretende desenvolver. Com as luzes certas e nas posições adequadas, é possível realçar ou esconder traços e expressões e valorizar formatos de rosto.

Para rostos triangulares, por exemplo, que têm como característica a testa alta e/ou larga, não é recomendável utilizar um ângulo de câmera alto, para que a testa não fique em primeiro plano e, consequentemente, mais larga.

O tratamento para rostos quadrados depende do gênero do modelo. Valorizado em homens, nas mulheres o formato quadrado é geralmente suavizado com o ângulo do rosto em 3/4 ou 7/8 em relação à câmera.

Enquanto os rostos ovais são os mais fáceis de fotografar, por serem considerados mais“harmônicos”, os de formato redondo exigem cuidado especial para não evidenciar a forma. A dica mais comum é trabalhar as luzes laterais, de forma que o rosto pareça mais estreito.

Direção do modelo

Retratos são fotografias de pessoas. A definição é básica, mas é importante lembrar-se disso durante a sessão fotográfica. Construa uma relação com seus retratados, sejam eles modelos profissionais ou pessoas “comuns”. Para isso, basta conversar e ter em mente que, quanto maior o nível de conforto do retratado, maior a naturalidade expressada na foto.

PROFESSOR E ALUNA COMENTAM A AULA

DPBR: Quais as três principais dicas para quem está iniciando na iluminação de retratos em estúdio?

Daniel Ávila: O primeiro passo é a criação do repertório, separar fotógrafos de que gosta e analisar as imagens. Depois de um tempo, tudo isso passa a ser inconsciente, e você mistura as referências e cria um estilo próprio.

Feito isso, é legal fazer pelo menos um curso básico de fotografia, assim você pode fazer ocaminho contrário, de olhar a foto e entender a luz que foi montada ali. A técnica é fundamental, porque ela torna as coisas palpáveis e concretas.

O terceiro ponto é praticar. Iluminação em estúdio deve ser testada. Compre um manequim e teste todas as suas ideias de luz nele. Assim que você aprender a manipular a luz, chame alguém para ficar no lugar do manequim.

DPBR: Quais as dificuldades enfrentadas pela aluna e como ela pode melhorar seus retratos em estúdio?

DA:Percebi que a principal dificuldade foi com a direção de modelos, apesar de não ser esse o tema do workshop. Contudo, quando você tem uma luz boa, a direção fica muito mais fácil. Eu consegui confiança para fazer retratos a partir domomento em que tive consciência de que iria me garantir com a luz e o mínimo de direção já resolveria.

DPBR: De tudo o que aprendeu, de que mais gostou, e como isso melhorará suas fotografias daqui para a frente?

Amanda Araújo: Para mim, a melhor parte foi aprender a direcionar as luzes. Em certo ponto do workshop, percebi que já tinha assimilado um pouco da interpretação das luzes. O professor falava como elas seriam posicionadas e eu já sabia mais ou menos como a iluminação final iria ficar.

DPBR: O que achou do workshop?

AA: Adorei o fato de a atenção estar voltada para minhas dúvidas. Mesmo na faculdade, é difícil conseguir manusear os equipamentos, ter um atendimento tão personalizado. Desta vez, consegui ter todas minhas perguntas respondidas.

DPBR: Qual foi sua principal dificuldade?

AA: Direção de modelos. Com tanta coisa para pensar, é difícil se lembrar de dizer ao modelo como se comportar.

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A ALUNA

Amanda Araújo

“Quando tiver meu próprio estúdio, vou utilizar todas as técnicas aprendidas aqui. O workshop me deixou inspirada. A experiência foi maravilhosa, nunca pensei que teria algo assim. Não me interessava muito por foto em estúdio, por achar um pouco ‘forçado’. Hoje, vi o quanto a gente pode misturar e mudar as luzes e fazer uma foto muito boa.”

O INSTRUTOR

Daniel Ávila

"A primeira vez que vi um retrato de Marilyn Monroe feito por Richard Avedon, entendi que queria fotografarpessoas e que queria fazer isso em PB. As fotos de Marilyn eram sempre cheias de glamour, enquanto naquela foto a expressão dela era de extrema vulnerabilidade. Olhei para aquele retrato e pensei que queria ter aquela imagem no negativo do meu filme."

 
 
 

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